Suzane Veiga

3 poemas nesta seleção

SANGUE URBANO

Restou-nos a medula:
Rio de Janeiro e suas vísceras
todas à mostra, enfim
Tomba o corpo de um poema
70% água, 30% medo
a bala atravessada na garganta
as veias abertas da cidade
num coração que ainda pulsa

FAZER DA PALAVRA CASA

é ofício de mulher
construir morada:
verbo sobre verbo
mão sobre mão

da linha sai um verso
rasgando o signo
constrói uma pilastra
e uma fundação

antes que se dê conta
formam-se treliças
estrofes de aço
como devem ser

as vigas são línguas
lambendo sentidos
é áspero e acetinado
o seu revestimento

fazer da palavra casa
onde se mora e se deita
onde se acha e se chora
sem culpa e sem demora

fazer da palavra casa
onde o sonho é possível
onde o abraço é abrigo
e o amor é asa

POEMA PLÁCIDO

colhi uma porção de malmequeres
sem plantar uma só flor de cansaço
sob um sol quente de mil clarices
eu ando, eu-aço, eu asso asso asso

de repente onde chorei mágoas
nasceu um pé de saudade torta
da branca, da roxa e da dobrada
pétalas e pétalas de natureza morta

de repente eu bato na tua porta
bem me quer, mal me quer?
se me queres, se tu queres
meu bem querer, meu bem

bem-te-quero, bem me quer?
bem-me-quero, bem te quis
plantações inteiras, internas
hectares de despedida

de repente malmequeres
ornados de palavras vazias
sejam tudo o que restou
no chão de terra batida

As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.

Baixar o PDF completo