Suzane Veiga

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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SANGUE URBANO

126SANGUE URBANORestou-nos a medula:Rio de Janeiro e suas víscerastodas à mostra, enfimTomba o corpo de um poema70% água, 30% medoa bala atravessada na gargantaas veias abertas da cidadenum coração que ainda pulsa

FAZER DA PALAVRA CASA

127FAZER DA PALAVRA CASAé ofício de mulherconstruir morada:verbo sobre verbomão sobre mãoda linha sai um versorasgando o signoconstrói uma pilastrae uma fundaçãoantes que se dê contaformam-se treliçasestrofes de açocomo devem seras vigas são línguaslambendo sentidosé áspero e acetinadoo seu revestimentofazer da palavra casaonde se mora e se deitaonde se acha e se chorasem culpa e sem demorafazer da palavra casaonde o sonho é possívelonde o abraço é abrigoe o amor é asa

POEMA PLÁCIDO

128POEMA PLÁCIDOcolhi uma porção de malmequeressem plantar uma só flor de cansaçosob um sol quente de mil clariceseu ando, eu-aço, eu asso asso assode repente onde chorei mágoasnasceu um pé de saudade tortada branca, da roxa e da dobradapétalas e pétalas de natureza mortade repente eu bato na tua portabem me quer, mal me quer?se me queres, se tu queresmeu bem querer, meu bembem-te-quero, bem me quer?bem-me-quero, bem te quisplantações inteiras, internashectares de despedidade repente malmequeresornados de palavras vaziassejam tudo o que restouno chão de terra batida

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