Alan Pellegrino

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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DESENHO DE DEUS

14DESENHO DE DEUSQuando escrevo um poema,sinto que tenho um pincel na mão.É como se Deus me desse um bastão [e me autorizasse a desenhar.Sempre que escrevo um poema,sinto que posso voar.É como se Deus me desse asase me encoraja- se a saltar.Só quando escrevo um poema,sinto que estou em liberdade.É como se Deus me desse as chavese dissesse para eu caminhar.Toda vez que escrevo um poema,posso voltar a ser menino.É como se Deus me desse a argilae permitisse eu me redesenhar.Apenas quando escrevo um poema,sinto que sou o criador.É como se Deus acendesse com amor [o brilho da lua que inspira o poeta.

A CASA

15A CASA Meu poema é desconstruído,parede sem chão.Muro sem alvenariae sem fundação.Gesto concreto,palavra com sustentação.Força do verbo encarnadoe da criação.Chão que flutua no versoe traz ilusão.Porta e janelas abertaspra inspiração.Doce perfume das floressem exatidão.Escada de incêndiopra erguer a palavra do chão.É pura imaginaçãopra fazer flutuar.Parede de cor encarnadaque inspira lutar.É força da naturezaa nos despertar.A casa feita de poema,do verbo morar.

QUEM MASTIGOU AS ROSAS ENGOLE O CHORO

16QUEM MASTIGOU AS ROSAS ENGOLE O CHOROO estado estava armado,EngatilhadoE apontadoPara a cara do sossego.Deixou sem vozCento e vinte e uma mãesDo Rio de Janeiro.O aparato militar para matarLava o morro de vermelho;Matérias em jornais e capas de revistaSe espalhou no mundo inteiro.O que já era complexoHoje nos deixa perplexos:A mãe ter que subir o morroPra buscar o filho mortoLá no alto do Complexo.Paredão, alto escalão,A polícia passa pano,Mas o rubro tá no chão.Diz que usou de inteligênciaPra entregar carnificina.Se o filho não foge à luta,É porque não têm opção.Drone que lança granada,Genocídio e opressão.
17Põe tensão,Morador Quem mastigou as rosas engole o choro.Serra da MisericórdiaPlanta semente de discórdia.Mães que choram pelo sangue dos seus filhos.Olho por olho,Dente por dente.O homem irracional, policial,Que mata gente.Blindado,Barricada,Atolada,A cabeça decepada.E o morador quer proteção Colhe negligência,Violência e opressãoDa instituição.Quem mastigou as rosas engole o choro.Agonia medieval,Cem homens de paraFAL.Apostou no ursoE hoje vai dar zebra.Árvores regadas com o sangue dos seus filhos
18Não é mera coincidência:Quem mastigou as rosas engole o choro.Ruas tão silenciosas,O vazio incomoda.A cidade hoje parece ficção.Carros em abandono,Fios de alta tensão,Cenas do apocalipse.E quem perdeu seu filhoEngole o choro.

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