Amauri Queiroz

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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CHAMADA DE EGUN

20CHAMADA DE EGUNSentado na parte baixa do porto eu anjo torto embria-gado de pôr de sol sinto o cheiro das carreiras de ondas com espumas brancas que se formam no mar e eriçam os pelos das minhas narinasCada vela que se vai é uma esperança que se apagaCada vela de chegada traz uma brisa de esperançaSereias perdidas catando guimbas de vida dos santos nos altares catando guimbas meladas pelas infelicida-des dos bares Enquanto isso o amor passa arrastado e sufocado pelos banheiros dos lupanares onde vampiros tímidos sugam extasiados delicados absorventes de alta alvuraSereias e Picassas em zonas de mil vidas naufragadas e desgraçadas se reproduzem submetidas ao hedonismo da fornicação celestial em cubos de cetimA vida passa como um filme sem roteiro como a sinergia dos gritos espetaculares e dos sincericídios nos orgas-mos em fruição lembrando que baratas malandreadas nunca atravessam galinheiros e amam a escuridão Detonando o trapezista em cacos de improvisação, sem fortuna, sem dinheiro na tensão e no tesão pelos aplau-sos da indigníssima plateia de saco cheio e indiferente urrando: “mete o pé daqui Medeia!”.
21Boas novas nem pensar onde ser normal é se mastur-bar e viver com dores de amores que são trituradas por moinhos de paixões retidas pelo zíper que defende o grilo falanteAh! Coração! Que abrasa e delicia meus caminhos! Na barra do vento do entardecer! É tudo tão morto! Mas aqui no mausoléu tem silêncio e conforto Estamos no tempo do tempo desta entidade estranha que não olha para trás e segue louco em sua sanha mirando sempre para o muro lá no fim do meu futuro encerrando no escuro minha estrada que não acaba em mimMeus olhos cansados olham nas brumas da eternidade e observam um triste e desolado egun purgando ao relento lamentando sua castidadeRoto e pobre, o egun sem orum segue vendido como um goleiro após tomar um gol de placa, mas sendo cons-ciente do seu ofício manda essa: “venha, já acabou! já é hora! já é tempo! se despeça do tormento da prisão do carbono! O trem das estrelas não espera!Renasça para mim.

OLHAR DE FOLHETIM

22OLHAR DE FOLHETIM DE NADA ADIANTA CHORAR O QUE PASSOU O BRILHO DE OUTRORA O TEMPO LEVOU SE PERDEU POR AÍ PELAS MADRUGADAS VIELASERROS FELIZES, CICATRIZES E OLHARES DAS JANELASMARCAS DOÍDAS, MARCAS DA VIDA, MARCAS DE AMAR QUE O ROUGE TEIMA EM OCULTAR MINHA CRUZADA EM SOLIDÃO ME LEVA AOS BARES COM AFLIÇÃO QUERO UM COPO AMIGO E UM CORPO AMIGO UM TANGO ANTIGO E UMA DOSE DE AMPARO COM UM BEIJO AMAROFINGIR QUE POSSO AMAR NO ABANDONO DA VIDASIGO A SINA DA MULHER DE NINGUÉMSOU MINHA, SOU SOZINHA, SEM DONOSOU LIVRE NO PROPRIO ABANDONOTRAGANDO HOMENS E CIGARROSVERMUTES SECOS E BEIJOS GELADOSHOMENS PUÍDOS, BEIJOS RASGADOSDIGO SIM ÀS PROPOSTAS CARENTES NÃO SEI PORQUE INSISTIR NO NÃO SOMOS SERES ESTRANHOS, CARENTES, INDECENTES, DIFERENTESO ÁLCOOL ME INCENDEIA EM BRASA E ME ENROSCO NO FOGO E NA DOR DORES PRESENTES
23PASSADO VADIO COM SUAS MARCAS E FERIDAS DAS LUTAS DE CIOFINJO PRAZER, SOU TEATRAL,DIVIDO PÓ E PECADOS NA DELÍCIA DO PRAZER MARGINAL É TANTO REVÉS, SUBMUNDO E TORPOR, É TANTA CARÊNCIA QUE ATÉ PARECE AMOR E QUANDO A AURORA ACORDA A CASASE ABRINDO RUBRA PARA O PALCO DO MUNDO SURGE O NINHO DE AMOR ARREPENDIDO CHEIRO DE DOR, DE ORGASMO BANDIDO EM LÁGRIMAS FRIAS APAGO TEU CHEIRO,CHEIRO DA FUMAÇA DO TEU CIGARRO, DAS TUAS MULHERES DA NOITE, DA TUA BEBIDA RUIM EU POBRE COLOMBINA EMBRIAGADAVOCÊ PIERROT DE VIDA DOÍDASOU COMO A FÊNIX QUE RESSURGIU DAS CINZASSUJA, DOLORIDA COMO UMA TRÓIACONQUISTADA E INCINERADA DOMINADA POR UM RUDE E TOSCO MENELAU COM SUA ESPADA PENETRANTEMAS SOU FORTE, INVENCÍVEL, SOU MULHERSOU A EVA QUE CONDENOU OS HOMENS AO TRABALHO ÁRDUOSOU A ALMA DO BAR, SOU TEU BOTEQUIM, A FILHA DE CAIMSOU O FALSO SORRISO QUE SEMPRE DIZ SIM MAS MEU TRISTE AMIGO NUNCA ACREDITENA MINHA SUAVIDADE DE NINFANEM NO MEU OLHAR DE FOLHETIM.

DOSTOIEVSKI PASSEANDO NAS ESTRELAS

24DOSTOIEVSKI PASSEANDO NAS ESTRELASSilêncio e luto nas noites brancas de São Petersburgo. Fiódor Dostoiévsky deixa o mundo dos vivos. O corpo jaz hirto e solene na casa dos mortos onde crimes e cas-tigos são perdoados e os demônios quedam exorcizados. A gente pobre, o idiota e o jogador choram observando o esquife que desce à tumba, quando a partir de então será uma triste memória do subsolo, marejando os olhos dos irmãos Karamazov. Os sons dos sinos enlutados das catedrais cobrem a triste cidade, com um lamento indescritível. Anunciam o fim da vida terrena do grande pensador e o início de sua passagem ao mundo espiri-tual. Fiódor enfim partiu livre e sem amarras na imen-sidão do universo. É quando acontece a emancipação do carbono, da casca de poeira de estrelas que limita a frágil matéria humana. Viaja extasiado por nebulo-sas, quasares, pulsares e aglomerados de galáxias. Em sua trajetória surgem berçários de estrelas dançando sobre a matéria escura, milhares de sóis iluminam sua jornada, coroando o sonho de um homem místico que considerava a morte uma história desagradável. Como um grande inquisidor pergunta onde estarão os anjos? A corte celestial? O paraíso onde celebra-se o reencon-tro com os ancestrais? Como não encontrar a verdade se a vida somente é suportável através da esperança que a morte é apenas uma ilusão. Sua nova forma é plasmática, sem densidade ou contornos definidos. A nova consciência ultrapassa as leis bárbaras e toscas do ínfimo conhecimento humano. Segue cruzando dimen-sões, mundos paralelos, misteriosos buracos negros com seus horizontes de eventos. Em sua fantástica via-gem rejubila-se com a perspectiva de estar diante do Dono de todo esse poder. Aquele velho, pesado e dolo-roso mundo ficou para trás. Planeta Terra, território
25de expiação e sofrimentos onde os humanos purgam suas dores existenciais e seus desejos inconfessáveis cobertos de fados e lamentos hostis. Na serenidade da liberdade mais pura, ouve os acordes que soam nos campanários do paraíso, onde o pensamento está livre das limitações da matéria, dos julgamentos, dos duplos comportamentos, das culpas e do cárcere punitivo do carbono. Flutua livre e suave nos infinitos recônditos do universo inimaginável. Viaja sob o troar dos Pilares da Criação, onde luzes rasgam as trevas imemoriais dos novos mundos da gênesis primordial. A maravilha da Criação segue gerando novos corpos celestes, estrelas de nêutron, gigantes vermelhas, sistemas binários, cons-telações e nuvens de gases que nascem do mais puro caos. Observa espantado a magnificência de todo o orde-namento universal, apesar da fúria e do caos parido na gélida escuridão. Onde estás agora nada é como imagi-namos, pois a determinação é para que tudo permaneça vedado e guardado aos olhos humanos, permanecendo sempre no mais profundo dos mistérios. O sábio lugar onde repousam as palavras divinas, o amor transcen-dental, a morada dos deuses que alimenta a alma sen-sível dos poetasFique em paz na eterna luz das estrelas camarada Fíódor.

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