Juliana Calafange

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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CRIANDO

86CRIANDO precisava escrever um poema e não sabia o que fazernão achava temabom pra desenvolvernenhum verso saía direitomas eu não sou de cederentão pensei não tem jeitovai ter que escrever!foi só aí que noteique já estava rimando(coisa que nunca imaginei)estava até inventandohistória ritmada pensando e versandode forma animadacomo criança brincandoigual o patetasegui digitandodançando com o fogo e me achando poeta.

MÃE

87MÃE hoje quero te dizer “gratidão”pela vida pelo pãopelo berço peito cafuné mamadeiracama cortina amor e brincadeirameu nome santo Maria Cristinapela família – minha origem nordestinapela renda de bilro o alfinino amor do vô Joaquimo lombo da Burrinha e o colo do Papangu nos carnavais de Barra do Cunhaú pelas salinas montanhas de sal grosso (e pelo vício de chupar sal grosso)sal de pedra ou sal de marpelo muro pra pular a goiabeira pra gostar e o mar – ah, o mar – pra aprender a nadarpor me ensinar o mistério da artee a levar um livro a qualquer partepor gostar de ler e de reler e de contar e de escreverpela mão, aberta ou fechada, que me ensinou a viverpela parceria confiançapela mútua fiançapela paz que não houve mas ainda viráe aquela viagem pra Itamaracáos netos que não teremosos filhos que não quisemosos cachorros e gatosah, os gatos! muito obrigada por eles!por me ensinar liberdade e lisuraa ser mulher, ser madura (às vezes imatura tambémsempre que convém)pelo que viremos a sera saber e a saber serminha primeira casa, mãesempre foi e será você.

PEDRAS ou AUTO DE RESISTÊNCIA

88PEDRAS ou AUTO DE RESISTÊNCIA é uma beira de calçadaum chão-abismo imundoa cabeça entre as mãos olhos no chãomar que não cabe dentroquer virar maremotomas não consegueporque a dor deixa tudo sem vontadeos sonhos se derramam pelo asfalto que é escuro e brilhante como um céu preto-estreladoa luz azul e vermelha piscapisca, pisca, mas não consola a bandeira da resistência é uma camiseta de escola manchada de sangue− o meliante resistiu.hoje só há pedra no lugar do seio que já deu leite e florno limite do mundo não cabe o amordaqui para frente a mulher seguirá vivendotrabalhando dormindo e comendo respirandomas o olhar ainda estará fixo nas estrelinhas do asfalto sujo.

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