Juliana Calafange

3 poemas nesta seleção

CRIANDO

precisava escrever um poema
e não sabia o que fazer
não achava tema
bom pra desenvolver
nenhum verso saía direito
mas eu não sou de ceder
então pensei não tem jeito
vai ter que escrever!
foi só aí que notei
que já estava rimando
(coisa que nunca imaginei)
estava até inventando
história ritmada
pensando e versando
de forma animada
como criança brincando
igual o pateta
segui digitando
dançando com o fogo e me achando poeta.

MÃE

hoje quero te dizer “gratidão”
pela vida pelo pão
pelo berço peito cafuné mamadeira
cama cortina amor e brincadeira
meu nome santo Maria Cristina
pela família – minha origem nordestina
pela renda de bilro o alfinin
o amor do vô Joaquim
o lombo da Burrinha e o colo do Papangu
nos carnavais de Barra do Cunhaú
pelas salinas montanhas de sal grosso
(e pelo vício de chupar sal grosso)
sal de pedra ou sal de mar
pelo muro pra pular a goiabeira pra gostar
e o mar – ah, o mar – pra aprender a nadar
por me ensinar o mistério da arte
e a levar um livro a qualquer parte
por gostar de ler e de reler e de contar e de escrever
pela mão, aberta ou fechada, que me ensinou a viver
pela parceria confiança
pela mútua fiança
pela paz que não houve mas ainda virá
e aquela viagem pra Itamaracá
os netos que não teremos
os filhos que não quisemos
os cachorros e gatos
ah, os gatos! muito obrigada por eles!
por me ensinar liberdade e lisura
a ser mulher, ser madura
(às vezes imatura também
sempre que convém)
pelo que viremos a ser
a saber e a saber ser
minha primeira casa, mãe
sempre foi e será você.

PEDRAS ou AUTO DE RESISTÊNCIA

é uma beira de calçada
um chão-abismo imundo
a cabeça entre as mãos
olhos no chão
mar que não cabe dentro
quer virar maremoto
mas não consegue
porque a dor
deixa tudo sem vontade
os sonhos se derramam pelo asfalto
que é escuro e brilhante
como um céu preto-estrelado
a luz azul e vermelha pisca
pisca, pisca, mas não consola
a bandeira da resistência
é uma camiseta de escola
manchada de sangue
− o meliante resistiu.

hoje só há pedra no lugar
do seio que já deu leite e flor
no limite do mundo
não cabe o amor
daqui para frente
a mulher seguirá vivendo
trabalhando dormindo e comendo
respirando
mas o olhar ainda estará fixo
nas estrelinhas do asfalto sujo.

As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.

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