Jandeilsom Galvão Bezerra

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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ENTREGADOR DE CAMÉLIAS

82ENTREGADOR DE CAMÉLIASPés marchando sobre o chão quente dos cascalhos,nas noites frenéticas da existência,Respirando o lodo da ignorância,o frenesi das conversas sem remorso.A pintura escamoteada da realidade,na ausência dos bastidores do existirA carne sem manifesto,embalando em som murmurante o lancheque já não é só uma voltinha nas ruas de casa.A flor branca de alvura ainda lutano copinho de água que vovô coloca aos pés da santa,nas memórias de vovó na hora da janta,nos sítios arqueológicos.Resiste a flor nos novembros negros,na ida e na volta do trabalhador.Sem reparação, a favela cresce,permeada pela injustiça históricaLuta a flor na guerra climática.

METRÓPOLIS ASSASSINA

83METRÓPOLIS ASSASSINARasguei meus versos em rascunhosCom o coração acabrunhadoCercado à ponta de fuzilRodeado de homens com coleteAo som de tiros, balas e foguetesQuerendo silenciar minha rimaQue é tímida e solvente,Declina a dorSem agudos ou falsetesEnquanto a morte Cala a vida para sempre.As ruas sequestradasOs becos tomadosProcesso cria ativoQuarteto maculado.— Olha a bala!— Perdeu! Perdeu!— Vai tomar tiro!— Fela da puta!Os gritos de guerras,As palavras de ódio,Quem tem ouvidos que ouçaO poema assombradoAs crianças? Nada! Quem se importa?Não tem psicóloga, é coisa de ricoSem tenda de abrigoOs mortos não se enterram sozinhos,Mas a poesia é esculpida.

FAVELADO

84FAVELADOQuando cheguei nessa terraDesprovida de cuidadosArranquei o lodo das pedrasPodei das árvores o galhoCapinei com as mãos o matoArejando todo o solo Depositei os meus cuidados.Adubando de esperançaDesviei com vala a lamaNo terreno que era infértilFui construindo o meu postalNos primeiros grãos brotadosUm enigma social.Entre as árvores minha casaIntegrada ao mei-ambienteComeçada como de taipaCom minha mãos somenteEm alvenaria me fez contenteQuando da varanda eu avistavaA beleza da bahia difenrente.O estado então entrouCobrando impostosNegativando nomesDerrubando nossas casasMassacrando nossa genteSem trabalho ou assistência,Me virei como pudeMe formei em resistência.

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