Palavra-barro –
quando escrita ou dita
inicia sua lida:
dar ao volátil
um palpável corpo,
massa que se apanha com mãos
de pensamento.
Palavra-pão
no forno da língua
em destrezas de artesão
fermenta e toma forma
semeia sentidos até sublimá-los
pela turva compreensão
– sentidos que nem fazem,
obliterados que foram da razão.
Tinta marcada em pele de papel
Tipografia, palavra-carimbo,
decalque do que será, e sempre
– ou do que já era, só
não tinha nome – ainda.
E nome não se dá: nome recebe.
Então,
na forma da palavra disforme
dá-se o milagre:
desenhos de retas e curvas
a que damos o nome letra
se juntam
– nunca em vão, não sem vãos –
e produzem significado.
Não abandonam, no entanto,
sua gênese – a incompletude,
todo o mistério: seu encanto.
PELA ORDEM
quando tudo na vida
o melhor a fazer
parece embolado
é deixar de lado e espairecer
às vezes devagar também é pressa.
pode ser o que mais interessa:
dar um passo atrás
tem vezes que
MIRE E VEJA
o maior risco
de se ler em movimento
é descolar a retina
dizem
o que não dizem:
o maior risco
de se ter em movimento
é deslocar a rotina.
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As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.