Paulo Sérgio Kajal

3 poemas nesta seleção

AS CIDADES E AS SOMBRAS (Parte I)

Os olhos da cidade te espreitam

Toda cidade é uma sombra de si mesma

Bosques, ciladas, cruzamentos, becos

Em cada esquina as cidades se parecem

No refúgio das sombras

No gosto de  sangue

E no cheiro de sexo

Segue o rio de asfalto o veneno da cidade

Da serpente a tocaia da fera

Todo covil o holograma de um beco

Todo beco é uma boca

que te fela

a seco

todo beco

é uma

boca

que te fela

a seco

AS CIDADES E AS SOMBRAS (PARTE II)

Há andarilhos que buscam

a luz das cidades

Eu não.

Busco os dois lados da moeda

de preferência

o sombrio

a umidade das relvas das praças

a nudez das névoas

as folhas secas que

encobrem os perigos

o não-dito

o bendito inesperado

o insólito o degenerado

o uivo dos lobos

a luminosidade cínica da lua

o encontro dos vampiros

a vela acesa

o encontro do amor

e da vala

o carinho no escuro

o afeto dos desesperados

Na cidade o amor

é um objeto voador

ainda não identificado

Para os que não me compreendem

é nas sombras que encontro

a possibilidade de ver Deus

e me entregar

AS CIDADES E AS SOMBRAS (PARTE III)

um novo velho Chaplin

caminha pelo viaduto

que triste cai

em direção ao horizonte

de um antigo e novo

fim do mundo

o fim do viaduto

é o fim do fim

do fim arco íris

lá há um pote de vidro

moeda de 25 centavos

pedra  de diamante

pedra de crack

numa bolsa de desvalores

debaixo do arco íris

os corpos se misturam

as almas se transmutam

latas vazias, níqueis

restos de desodorante

o arco viaduto segue a direção do mundo

feixes de luz

íris de sombras

um novo Tirésias de olhos abertos

encara a grande serpente

que suspende o mundo

                               em si

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