Os olhos da cidade te espreitam
Toda cidade é uma sombra de si mesma
Bosques, ciladas, cruzamentos, becos
Em cada esquina as cidades se parecem
No refúgio das sombras
No gosto de sangue
E no cheiro de sexo
Segue o rio de asfalto o veneno da cidade
Da serpente a tocaia da fera
Todo covil o holograma de um beco
Todo beco é uma boca
que te fela
a seco
todo beco
é uma
boca
que te fela
a seco
AS CIDADES E AS SOMBRAS (PARTE II)
Há andarilhos que buscam
a luz das cidades
Eu não.
Busco os dois lados da moeda
de preferência
o sombrio
a umidade das relvas das praças
a nudez das névoas
as folhas secas que
encobrem os perigos
o não-dito
o bendito inesperado
o insólito o degenerado
o uivo dos lobos
a luminosidade cínica da lua
o encontro dos vampiros
a vela acesa
o encontro do amor
e da vala
o carinho no escuro
o afeto dos desesperados
Na cidade o amor
é um objeto voador
ainda não identificado
Para os que não me compreendem
é nas sombras que encontro
a possibilidade de ver Deus
e me entregar
AS CIDADES E AS SOMBRAS (PARTE III)
um novo velho Chaplin
caminha pelo viaduto
que triste cai
em direção ao horizonte
de um antigo e novo
fim do mundo
o fim do viaduto
é o fim do fim
do fim arco íris
lá há um pote de vidro
moeda de 25 centavos
pedra de diamante
pedra de crack
numa bolsa de desvalores
debaixo do arco íris
os corpos se misturam
as almas se transmutam
latas vazias, níqueis
restos de desodorante
o arco viaduto segue a direção do mundo
feixes de luz
íris de sombras
um novo Tirésias de olhos abertos
encara a grande serpente
que suspende o mundo
em si
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