Queria cantar "Madureira",
o samba de Arlindo Cruz.
Mas a cidade está mortífera,
e nem o batuque seduz.
Fizeram a passagem pelo Cruzeiro.
—Nossa Senhora da Penha,livrai-nos do mal!—
Sacos pretos,um formigueiro
de sonhos virados em lixo colossal.
Pilhas de corpos entulhados.
Cadê a maravilhosa cidade?
O sol que dourava os corpos cansados,
agora,na mesma luz, acelera a decompocidade.
O baile funk calou sua fala.
Fumaças negras brotam da quebrada.
O estrondo que ensurdece avisa:
aqui,a vida é coisa arriscada.
Quero de volta a sagacidade
do ritmo que sabe encantar:
"Favela!Tu és meu lar!”
CASA EM NÓS
O sol pela fresta traz o dia,
o café desperta seus aromas pela casa.
A família une vozes num pai-nosso,
enquanto o pão crepita na chapa quente.
No quintal, o carrinho novo risca o cimento,
a festa do batismo sob o céu azul.
Da cozinha,o alho dourado abraça o feijão,
e as onze-horas desabrocham no jardim.
As panelas guardam memórias em cada gota,
as paredes vestem mapas de infância.
O abraço matinal aquece o uniforme,
enquanto beija-flores dançam na varanda.
Os desenhos animados criavam mundos
na TV que encantava nossas tardes.
Até que um voo partiu sem volta,
levando na asa o que não pôde ficar.
No piso que guarda marcas de seus passos,
no teto que testemunhou nossos sonhos,
nessa casa que em mim sempre mora-
mesmo vazia,segue habitada.
PEDRA DE AXÉ
Exu me deu a pedra no terreiro
que Xangô partiu no desfiladeiro
a pedra pétrea que se fez viva
na fumaça sagrada que ascende
No cordão de prata e cobalto
no carvão que guarda o fogo ancestral
fostes forjada na pressão do tempo
carregando axé até minha mão
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