V. Hugo

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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QUEDACIDADE

134QUEDACIDADEQueria cantar "Madureira",o samba de Arlindo Cruz.Mas a cidade está mortífera,e nem o batuque seduz.Fizeram a passagem pelo Cruzeiro.—Nossa Senhora da Penha,livrai-nos do mal!—Sacos pretos,um formigueirode sonhos virados em lixo colossal.Pilhas de corpos entulhados.Cadê a maravilhosa cidade?O sol que dourava os corpos cansados,agora,na mesma luz, acelera a decompocidade.O baile funk calou sua fala.Fumaças negras brotam da quebrada.O estrondo que ensurdece avisa:aqui,a vida é coisa arriscada.Quero de volta a sagacidadedo ritmo que sabe encantar:"Favela!Tu és meu lar!”

CASA EM NÓS

135CASA EM NÓSO sol pela fresta traz o dia,o café desperta seus aromas pela casa.A família une vozes num pai-nosso,enquanto o pão crepita na chapa quente.No quintal, o carrinho novo risca o cimento,a festa do batismo sob o céu azul.Da cozinha,o alho dourado abraça o feijão,e as onze-horas desabrocham no jardim.As panelas guardam memórias em cada gota,as paredes vestem mapas de infância.O abraço matinal aquece o uniforme,enquanto beija-flores dançam na varanda.Os desenhos animados criavam mundosna TV que encantava nossas tardes.Até que um voo partiu sem volta,levando na asa o que não pôde ficar.No piso que guarda marcas de seus passos,no teto que testemunhou nossos sonhos,nessa casa que em mim sempre mora-mesmo vazia,segue habitada.

PEDRA DE AXÉ

136PEDRA DE AXÉExu me deu a pedra no terreiroque Xangô partiu no desfiladeiroa pedra pétrea que se fez vivana fumaça sagrada que ascendeNo cordão de prata e cobaltono carvão que guarda o fogo ancestralfostes forjada na pressão do tempocarregando axé até minha mão

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