POETICIDADE I
Bato as asas no céu estrelado
Já não sei se a carniça está abaixo
Ou putrefata em meus bicos
Através da sombra macabra
As luzes retangulares acendem e apagam
Já não sei se só com um de meus olhos dou conta
De todos com quem me deparo
Olhar místico de quem jaz no poleiro e
Nas cordilheiras de sua sala
Escuro púrpura faz dos esgotos, das casas,
O asfalto acinzentado sem alma
Grito em forma de guincho toca-me a carne em meio
Aos transeuntes com quem se depara
Nunca-mais é palavra ingrata
Que não tem ressonância num mundo sem aparas
POETICIDADE II
O corvo guincha por cima da cidade
Dónde estás, Lenore
Procura aqui e ali, vê ratos e pombos
Tiros, lixo, pedintes, androides que
Sonham com ovelhas elétricas
Dónde estás, Lenore
Viraste robô? Obedece às três leis?
Dónde estás, Lenore
Mas o corvo, sempre atento, sente
Sente o cheiro não de carniça, ou da poeira
De carnes e legumes em brasa de uma casa
Verdejante, florida, cheia de vida
Dónde estás, Lenore
Viu humanos rindo, tossindo, gritando
Conversas e guinchos não melancólicos
Lágrimas de quem ri e quem chora em ombro amigo
Like tears in the rain
Quiero que te quieras allí, Lenore