Victor Rabello Ayres

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HÁ DIAS

Poema visual Há dias em copo que adias, de Victor Rabello Ayres, reproduzido como imagem da página original.
Há dias em copo que adias

POETICIDADE I

139POETICIDADE IBato as asas no céu estreladoJá não sei se a carniça está abaixoOu putrefata em meus bicosAtravés da sombra macabraAs luzes retangulares acendem e apagamJá não sei se só com um de meus olhos dou contaDe todos com quem me deparoOlhar místico de quem jaz no poleiro eNas cordilheiras de sua salaEscuro púrpura faz dos esgotos, das casas,O asfalto acinzentado sem almaGrito em forma de guincho toca-me a carne em meioAos transeuntes com quem se deparaNunca-mais é palavra ingrataQue não tem ressonância num mundo sem aparas

POETICIDADE II

140POETICIDADE IIO corvo guincha por cima da cidadeDónde estás, LenoreProcura aqui e ali, vê ratos e pombosTiros, lixo, pedintes, androides queSonham com ovelhas elétricasDónde estás, LenoreViraste robô? Obedece às três leis?Dónde estás, LenoreMas o corvo, sempre atento, senteSente o cheiro não de carniça, ou da poeiraDe carnes e legumes em brasa de uma casaVerdejante, florida, cheia de vidaDónde estás, LenoreViu humanos rindo, tossindo, gritandoConversas e guinchos não melancólicosLágrimas de quem ri e quem chora em ombro amigoLike tears in the rainQuiero que te quieras allí, Lenore

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