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De que são feitas as casas
que moram dentro desta casa?
Casas de sonho
de bonecas
de areia
escorrendo
dia após dia
das arestas
Iluminada pelo breu do luto,
trançada de vulto e vácuo
Escada em espiral, bromélias
barcos naufragados cer
nos cantos dos quartos
O escritório do avô:
camas
livros
fatos revelados
em câmera lenta
O próprio avô, fantasma, passeia no espaço:
de quando em quando ajeita um quadro
As salas, os sofás, os santos
a louça azul chinesa –
camadas geológicas
impressas na madeira
(a família, ainda a mesma?)
Xícaras, bolos, rabanadas
Sobre as mesas, candelabros
velas acesas
taças de cristal
O som das musiquinhas do Natal
O seio costurado da avó
O silêncio aguado do pai
Os gestos justos da mãe
De que são feitas as casas
que gestam as gerações?
RIO DE JANEIRO, 28 DE OUTUBRO DE 2025
O coração dispara o metal frio das balas atravessando o corpo de um poema impossível As aveninas das palavras paradas em silêncio apavorado pólvora espalhada num intrincado mapa de espanto e míssel Recolho as cinzas de um poema que não foi regresso à casa no antes da palavra adormeço no caos Sonho com peixes escorregadios de puro susto e terror o poema um fantasma que me assombra pela manhã
UM POEMA SOBRE UM POEMA
à William Carlos Williams Um poema sobre um cachorro É um poema sobre um cachorro E um poema sobre um poema É um poema sobre um poema Mas não só Visto que late silêncios ritmados Abana o rabo espantado com sua própria nudez Cheira o avesso do verso Apalpa a palavra da vez O inverso do verso É sorver o universo? Quem sabe, talvez? Quem se importa? Volta a lamber seus planetas E deita-se no batente da porta.
As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.
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