Priscila Iglesias

Poemas da antologia, organizados na página para preservar a leitura original.

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IMPROVISO

110IMPROVISOEis que uma nota controversaatravessou os compassose a orquestra parou.Mas não tive alternativa senão seguir firme em meu soloe tocar sobre o amor.Tocar em desafinocomo se eu pudesseamar você amando o seu amor.Tocar em sol maior,amar em dó menor, com pausas e sem fervor. Tocar de improvisoe, entre um bemol e um sustenido,amar o riso e a dor.Tocar, por fim, com devoçãocomo quando se ama uma música de outro compositor.

INSOLÚVEL

111INSOLÚVELUma lágrima entornou feito um copo d´água sobre o poemaque eu rascunhava.A caneta derrapouna superfície molhada.Meus sentidos, em refração,embaixo d’água.Socorro, Adéliaainda são quatro da madrugada e eu já aqui, no meu peito,com essa faca.Uma lágrima desabou feito chuva ácida sobre as mudas de sonhosque eu adubava.Restei eu, em póe misturadasem solução, neste poema, embaixo d’água.

A NATUREZA DA ÁGUA

112A NATUREZA DA ÁGUAEu vim, eu sei.Rasguei o chãoCriando caminhosPreenchi cada vãocomigo.Cresci, infleiGanhei forçaE arrastei o chãocomigo.Quis ficarFundir-me às raízesTransmutar o desejoem permanente revolução.Desaguar, porémnão era destinoE, no ritmo do ciclo,me dissipei.Perdão, coração, minguei…Saiba, secar é a dor maior de um rio.Etérea, agora,e invisívelexisto sem caberem nenhuma medida.
113Nutro o tempocom o sonho possívelde me transformarpara re-inaugurar a vida.

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